terça-feira, 29 de março de 2016

Defesa Comprometida, pelo Incorretamente Despolitizado

Os resultados apresentados pela cúpula de direção brasileira continuam a causar alvoroço dentro e fora do país, ampliando a crise iniciada em 2014 e que parece não ter fim.

Nesta terça-feira, o país viu mais uma grande desarticulação dominar o campo onde atuam seus representantes. Confortáveis com o peso mórbido de suas contas no exterior e carentes de uma liderança coesa e competente o suficiente para promover sinergia entre suas peças mais importantes, os astros tupiniquins demonstraram grande incapacidade para reverter o resultado negativo calcado por sua contínua desorganização.

Com isso, o Brasil permanece em baixa, indesejavelmente próximo de países menores como Peru, Colômbia e Paraguai, a despeito da riqueza de seus recursos e supremacia populacional no continente. Nessa hora, o peso da ausência de nomes de confiança, todos investigados dentro ou fora do país, pesa para a manutenção de uma pergunta que simplesmente não quer calar.

Afinal, você é a favor ou contra a saída de Dunga?


quarta-feira, 23 de março de 2016

Última chamada, pelo Incorrespondente Nacional

Atenção, senhores passageiros.

O Aeroporto Internacional Zaventem anuncia mais um alerta às estratégias europeias em sua política externa de combate ao terrorismo no oriente médio. A área de check-in do aeroporto permanece indisponível a todos aqueles que desejem partir, e um exercício mais rigoroso nas fronteiras também deverá impedir a entrada de indivíduos não credenciados ao país. Lamentamos dizer também que o saguão de embarques abriga apenas parte das vítimas surpreendidas pelo fogo cruzado entre o fanatismo ideológico e interesses políticos camuflados - duas forças tão intrínsecas como simbióticas da era política moderna.

Informamos ainda aos senhores passageiros que o risco de novos ataques permanece inalterado, e aconselhamos a todos que não portem intolerância quando os embarques voltarem a ser realizados. O Aeroporto Internacional Zaventem condena veementemente os ataques realizados na manhã de terça-feira, reproduzindo mecanicamente o pronunciamento protocolar realizado entre os maiores líderes europeus e americanos mediante a presente situação. Às famílias das vítimas, comprometemo-nos a oferecer todo o suporte e ajuda necessários, da mesma forma como observamos outras instituições fazerem diante dos atentados realizados em 2015. Nosso poder de adotar as políticas cabíveis para preveni-los, contudo, permanece distante de parte das metas traçadas pela União, resultando em uma provável extensão dos conflitos por tempo indeterminado.  

Desejamos a todos os chefes de estado uma urgente busca por soluções, e aos praticantes dos recentes atos de terrorismo, o exato abismo no qual apenas dizem acreditar. 

Tenham todos um pouco mais a lamentar e pensar.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Zootopia, pelo Crítico Mirim

Ontem fui no sinema acistir o novo dezenho da disnei, zootopia.

Os animais falam que nem gente. Tem uma coelhinha que odeia ser chamada de fofa. Ela quer ser policial, mais todo mundo acha que ela não vai conseguir. Parece a minha irmã, que quer ser pilota de carro mais meus pais não deixam.

Zootopia é uma cidade grande que nem são paulo. Ninguém liga muinto pra você, já que tá todo mundo junto e misturado. Lá tem os predatores e as prezas. A coelhinha acha que a rapoza é malvada só porque é predatora. Mais aí quando ela vira policial ela precisa da ajuda da rapoza por cauza de um crime. Vários predatores estão virando selvagens de novo.

O desenho é engrassado. Cada parte da cidade tem bichos diferentes. Meus pais gostarão da parte do detran. Disserão que é igualzinho. Eu gostei mais da parte dos ratinhos. Minha mãe disse que a mensagem do filme é bonita. Todo mundo tem preconsseito, mais se você quer ser melhor, tem que adimitir o problema pra depois mudar. Que nem na escola. Eu não gostava do raoni porque ele tem cara de indio. Mais aí a gente fez um trabalho junto. Ele é muinto legal.

A monica iozi e o rodrigo lombardi fazem as vozes da coelhinha e da raposa. A monica é engrassada. Meu pai disse que a voz do rodrigo ficou parecida com a original. Os efeitos são bonitos, e as músicas também. Tem a shakira cantando. Eu gosto dela, mais meus amigos falam que é coisa de menina. Acho que eles precisam assistir o dezenho também.

Recommendo muinto assistir zootopia, professora. Acho que falar sobre ele na classe seria bem divertido.    

sábado, 19 de março de 2016

O Horóscopo, por CaprichosamenteTEEN

Os astros indicam uma semana agitada mais à frente. Além do desalinhamento dos planetas, a Terra também parece ter saído um pouco de seu eixo normal. Acompanhe as dicas a seguir para tentar lidar com as novas forças que regem o cosmo!

Áries (21/03-20/04) – Use sensatez e criatividade para manifestar sua opinião de modo sadio pelos próximos dias. Não tente impor seu ponto vista para cima dos outros, e esteja disposta a ouvir com atenção quando for necessário.

Touro (21/04-21/05) – Não faça da cor vermelha sua pior inimiga na escola. Da mesma forma, evite fazer de seu guarda-roupas um desfile colorado contínuo. Sem rancor ou orgulho, você estará apta a opinar com mais clareza e lucidez em qualquer situação. Uma flâmula é sempre necessária para distrai-la das espadas - e essas podem apunhalá-la dos dois lados.

Gêmeos (22/05-21/06) – Evite confiar cegamente nas figuras que dizem representá-la. Todo mundo, inclusive você, têm mais de uma face guardada a sete chaves dentro de si. Entenda os dois lados da moeda antes de escolher cara ou coroa.

Câncer (22/06-22/07) – Capriche nas pesquisas para dar aquela impressionada na galera de suas rede sociais. Compartilhar artigos não lidos pode ser tão embaraçoso quanto recusar-se a ler informações vindas de veículos cujas opiniões diferem da sua.

Leão (23/07-23/08) – Vá com calma em seus argumentos. A pressa é inimiga da perfeição, e uma ofensa em falso pode afastá-la de pessoas com as quais você realmente se importa. Evite o uso de estereótipos e alcunhas taxativas. O bote pode ser fatal.

Virgem (24/08-22/09) – Não seja inocente a ponto de achar que está sempre certa. Engula o orgulho e admita ter errado quando for preciso. Teimosia exagerada é justamente aquilo que a impede de ser vista como imparcialmente racional. 

Libra (23/09-22/10) – Só porque uma justiça não é a sua, não quer dizer que ela seja necessariamente incorreta. Acostume-se a isso o quanto antes, evitando desilusões futuras e uma descrença irremediável. O entendimento concreto de leis e termos jurídicos podem certamente ajudá-la com isso.

Escorpião (23/10-21/11) – Controle o nível de veneno que borbulhar tanto em seus dedos quanto em sua língua. Palavras têm uma força maior do que podemos julgar e, uma vez registradas, dificilmente serão esquecidas. 

Sagitário (22/11-21/12) – Evite estabelecer alvos fixos para disparar suas flechas. O jogo muda muito rápido, e sua percepção tem de estar afiada para entender os novos rumos que o acaso trouxer.

Capricórnio (22/12-20/01) – Preste atenção em sua crenças. Usada ao lado do medo, uma ideologia pode ser tão facilmente manipulada quanto a raiva, fazendo de você um mero instrumento para os fins de outras pessoas. Quem acusa os outros de marionetes pode ser justamente aquela dançando sob os cordões.

Aquário (21/01-19/02) – Esta é a sua era. Não deixe que o excesso de informações superficiais faça de você a vítima da semana. As atualizações são rápidas demais para qualquer mortal permanecer plenamente informado, então busque sempre análises profundas sobre o que vier a ler.

Peixes (20/02-20/03) - A confusão pode ser justamente o maior sinal de seu real entendimento das coisas. Pode parecer difícil, mas dê tempo ao tempo enquanto analisa cada detalhe com o máximo de cuidado.

[Atualizado] Segundo informam alguns leitores, esquecemos do signo de Serpentário, descoberto recentemente. Nossos astrólogos trabalham com calma e responsabilidade antes de fazerem um pronunciamento.

Previsão do Dia, pelo TempoClima

Texto originalmente publicado no Facebook dia 18/03/2016
Uma onda avassaladora de calor continua a avançar pelas regiões mais populosas do país. Com um aumento tão drástico de temperatura assim, provocado em parte por uma massa de ar quente detectada na última quarta-feira, é melhor o pedestre pensar duas vezes antes de ir às ruas, pois também aumentam as chances de pancadas durante o fim da tarde.
Enquanto a frente fria parece distante, aconselhamos a todos que mantenham-se hidratados, lavando o rosto em água fria ao menor sinal de irracionalidade. Em caso de tempestade, procurem abrigo ao invés de abrir o guarda-chuva ou aparelhos eletrônicos, que podem servir como para-raio em locais abertos. Aproximar-se de árvores pode ser uma opção igualmente letal, esteja você disposto a serrá-la ou defendê-la.
Na região norte, a temperatura parece mais amena, na casa dos 30°C.
No nordeste, os termômetros registram um aumento de temperatura incomum para a época, que até pouco tempo costumava girar em torno dos 13°C.
No sudeste, o verão parece ainda não ter terminado, registrando os maiores índices de calor desde 1992. O dia de hoje pode registrar uma máxima de 45°C.
Na região sul, oscilações anormais de temperatura durante o dia indicam uma mínima de 15°C e uma máxima de 45°C.
O centro-oeste continua extremamente nublado, aguardando mais pancadas a qualquer instante.
Diante desse cenário, a Prefeitura de Bom Senso, muito afetada pela situação, soltou uma nota lamentando novamente a falta de planejamento para um sistema de drenagem operante em todos os lados do país, o que vem comprometendo muito a saúde pública dos cidadãos nessa temporada tão imprevisível.

O Combate da Década, pelo Caderno de Esportes

Texto originalmente publicado no Facebook dia 17/03/2016
Ontem, 16/03/2016, o país presenciou um dos maiores eventos de Vale-Tudo em sua história. De um lado, o aposentado Yarará Rojo voltava aos ringues graças a um dos golpes publicitários mais surreais que sua agente já desenhara. Do outro, ganhando cada vez mais fama com o público fervoroso, El Morodor espumava como um cão raivoso aguardando a chance de rebater os insultos registrados pela mídia ao longo da semana.
No primeiro round, Yarará Rojo pareceu ter total controle da luta. Variando entre uma poderosa esquerda e golpes destros tão escondidos quanto eficazes, sua idade avançada não era refletida em seus movimentos tão esguios e rápidos, desviando da maior parte dos ataques de El Morodor com grande eficiência. Conforme o embate continuou, contudo, Yarará Rojo mostrou uma soberba exacerbada, abaixando a guarda diante de uma vitória que dava como certa. El Morodor, no entanto, ainda não estava vencido, e logo usou a brecha oferecida para mostrar seu próprio entendimento do manual de lutas que seu oponente dizia conhecer tão bem.
Usando os grampos que prendiam seus cabelos, El Morodor avançou furiosamente em um contra-golpe desesperado, temendo perder a abertura que se apresentava naquele instante. O ataque, visto como ilegal pela comissão técnica de Yarará Rojo e que precisa de apuração urgente pelo STJD, foi forte, embora não definitivo. Questionado posteriormente sobre ter infringido alguma regra de combate, El Morodor afirmou que aquela luta sequer deveria ter acontecido, alegando que Yarará Rojo já deveria ter sido banido do esporte há muito tempo, dado o histórico de atos indisciplinares que pareciam permear a última parte de sua carreira.
Aos conhecedores do esporte, a comparação com a terrível luta de 31/03/1964 entre Goularzito e El Estadón parecia tão inevitável quanto comparar Maradona a Messi, alienando os personagens do tempo e mundo onde se encontravam.
Ao final da noite, quem perdeu foi o público, que viu um empate técnico frustrantemente amador ser anunciado. Ainda não há data marcada para o rematch, que você acompanhará com exclusividade em qualquer rede social próxima a você, com os comentários de qualquer um ainda disposto a defender cegamente um dos lados.

Dia de Circo, pelo Cronista Desiludido

Texto originalmente publicado no Facebook dia 16/03/2016 


Era uma vez um garoto chamado Joãozinho, que sempre quisera conhecer o circo do qual tanto ouvira falar.
Um belo dia, seus pais resolveram presenteá-lo com três entradas para o espetáculo do fim de semana seguinte. Tamanha era a ansiedade do menino que os próximos dias rastejaram ociosamente até chegar aquela tarde de domingo, quando Joãozinho sentiu a animação atingir seu pico diante do corredor de entrada da fabulosa tenda circense, onde o rufar dos tambores o saudou em grave estrondo. Seu coraçãozinho acelerou um pouco mais quando o bilhete deslizou da ponta de seus dedos até o interior da urna, desmontando acidentalmente o castelo de certezas que o menino construíra em sua mente. Segurando as mãos de seus pais, Joãozinho avançou corredor adentro e procurou um lugar onde todos eles pudessem se sentar.
Primeiramente, o menino tentou a arquibancada azul que parecia mais próxima a ele. Seu queixo ergueu-se automaticamente diante da escadaria íngreme que o separava dos poucos assentos ainda disponíveis no setor - pelo menos até que a coleção de pertences de uma velha senhora tomasse as mesmas três cadeira que ele pensara em pleitear. Para piorar, observando mais atentamente aquelas pessoas, Joãozinho ficou com a impressão de que aquele era um lugar muito pouco amigável a crianças como ele: o olhar estupefato com que os pequeninos admiravam seus cones de sorvete vazios contrastava com as manchas de chocolate espalhadas sobre as bochechas dos homens rechonchudos e elegantes que as observavam.
Levemente desconcertado, Joãozinho apertou as mãos de seus pais e olhou para o outro lado do corredor, onde um setor maior da arquibancada continha fileiras vermelhas muito mais numerosas que desciam até a posição atual do garoto, bem pertinho do picadeiro. Os rostos ferventes dos espectadores acompanhavam a música ambiente com empolgação, contrariando a apatia demonstrada pelo setor azul disperso do outro lado do picadeiro. Sem pensar duas vezes, Joãozinho deu seu primeiro passo naquela direção, antes que uma enxurrada de olhares duros congelasse seus movimentos.
O que aquele menino tão alienado esperava fazer ali, afinal? Suas roupas gritavam uma classianidade mediana inegavelmente europeica - ou assim ouviram seus ouvidinhos tão delicados. Uma criança assim jamais compreenderia um espetáculo circense ao vivo como aquele, estando tão acostumada à televisão. Houve aqueles que até o acusaram de ser um espectador da arquibancada contrária, apenas disposto a atrapalhar a festa.
Joãozinho acanhou-se diante da avalanche de sabedoria e altruísmo que pareceu desabar sobre ele, completamente alheio ao fato de que a parte inferior da mesma arquibancada vermelha também não entendia muito bem o que os outros diziam. Mas eles acenavam com a cabeça, acenavam. Não havia lugar algum para Joãozinho ali também, afinal.
Acuado, o menino retrocedeu pelo corredor, percebendo que seus pais lutavam para subir a escadaria íngreme do setor azul do outro lado do picadeiro, deixando-o tão sozinho quanto o menino passava as tardes no pátio da escola. Ao respeitável público da arquibancada vermelha, a gerente do espetáculo prometia agora uma rodada de pizzas em troca de uma grande salva de palmas, que irrompeu de boa parte do público na mesma hora. Ao respeitável público da arquibancada azul, a mesma senhora distribuia seus cartões de contato como se fossem bilhetes premiados, disputados a tapa pelos sujeitos engomados.
Joãozinho naturalmente desistiu de procurar pelos pais naquele instante, decidindo assistir ao espetáculo no meio do corredor mesmo. Suas mãozinhas já tremiam em empolgação quando a senhora finalmente anunciou a trupe que entrava no picadeiro.
Dentre todos os palhaços, trapezistas e ilusionistas presentes, Joãozinho indentificou diversos remanescentes das últimas versões do espetáculo - se é que as páginas virtuais que visitara podiam ser confiadas, é claro. A completa falta de equilibristas passou quase despercebida por ele, talvez graças à grande quantidade de contorcionistas já presentes. O que mais espantou o menino, contudo, foram os malabaristas. Esses sim sabiam conduzir o show, brincando com a expectativa do público enquanto os mágicos faziam desaparecer diversos objetos dos dois lados da plateia. Estranhamente, contudo, grande parte de ambos os setores pareceu não entender a brincadeira, acusando o lado oposto de terem furtado seus pertences.
Justamente enquanto entravam os animais, no entanto, é que a errônea sutileza de uma pedalada em falso compremeteu não só o espetáculo, mas o circo inteiro de fato. O globista acertou um dos pirofagistas em cheio, e os bastões flamejantes que saltavam à meia altura fugiram do controle, ateando a cabeleira colorida dos palhaços bem no meio de seu ato. Aturdidos, os pobrezinhos esbarraram em mais alguns dos malabaristas, que por sua vez derrubaram os mágicos e até mesmo os acrobatas que preparavam-se para mais uma série de saltos. Em meio ao caos agora generalizado, somente o leão parecia sob controle, obedecendo à risca as ordens de seu domador - que pelo que Joãozinho notou, parecia mais empenhado em proteger os membros da trupe do que a própria plateia. Bem ao centro do picadeiro, a gerente do circo parecia simplesmente aturdida, e algo estranho em sua nova feição chamou a atenção do menino rapidamente: linhas escuras escorriam das pontas de seus lábios secos até o queixo aveludado mais abaixo, e Joãozinho espantou-se ao identificar as cordas que prendiam seu corpo de fantoche junto ao colo de um homem idoso de olhar aparentemente amistoso.
Mesmo com o recém-chegado ventríloco, a gritaria só se intensificou pelos próximos minutos, martelando na cabeça de Joãozinho como o som das paneladas com as quais sua avó o chamava para almoçar. Apreensivo, Joãozinho ouviu os dois setores polarizarem por completo em questão de segundos: os senhores e senhoras das arquibancadas azuis superiores exigiam aos brados seu dinheiro de volta, mostrando pouca preocupação com quem estava mais próximo do picadeiro. Do outro lado, o público das arquibancadas vermelhas tentava convencer os outros de que já tinham visto incêndios muito piores no passado - isso é, se aquilo realmente fosse um incêndio no fim das contas, e não apenas um golpe ilusionista do circo concorrente. No fogo cruzado, sobrou ainda para filósofos gregos, escoceses e prussos sobre os quais Joãozinho pouco ouvira falar, mas que eram recitados como canções de ninar pelas arquibancadas, agora engajadas em uma batalha de estéreo tipos. Ou seriam tipos estéreos?
Joãozinho tentou gritar, completamente exasperado. De um lado, sua voz era completamente ignorada; de outro, algumas pessoas cogitavam culpá-lo pelo que havia acontecido. E foi justamente assim, espremido entre o anonimato e o ódio, que Joãozinho assistiu ao circo inteiro pegar fogo - e nem mesmo toda a água do lava jato vizinho ao circo foi capaz de abatê-lo. Na verdade, ela parecia mais querosene.
Incerto sobre o que seria dele e de todas aquelas pessoas, o menino perguntou-se por que os adultos demoravam tanto para tomar uma decisão sensata em uma hora tão crítica quanto aquela. Por que é que os devoradores de sorvete, sentados tão ao alto nas arquibancadas azuis, não desciam até o picadeiro e usavam o conhecimento técnico do qual se gabavam para salvar toda aquela gente? Por que é que a plateia oposta, tão resoluta em ressaltar seu compromisso com o bem estar de todos, gastava tanto tempo assoprando o fantoche, o ventrículo e seus palhaços ao invés de tentar socorrer os mais próximos?
Tais respostas Joãozinho jamais saberia, pois o circo veio abaixo mais rápido do que todos haviam previsto. Ironicamente, contudo, foram muito mais membros da trupe do que espectadores que sobreviveram ao terrível acidente.
Passada uma semana da tragédia, o mundo virtual viu duas figuras emergirem ferozmente das cinzas do acontecimento: a do velho ventríloco, que se desfizera de seu fantoche e bradava ser capaz de conduzir o circo tão bem quanto antes, e aquela de um homem serpentiloso que estivera o tempo inteiro observando o desastre lá de dentro, apenas esperando uma oportunidade para erguer um circo mais firme, onde suas aberrações seriam tratadas no chicote.
E quanto ao Joãozinho?


Não é como se qualquer um de nós realmente se importasse com ele.