sábado, 19 de março de 2016

Dia de Circo, pelo Cronista Desiludido

Texto originalmente publicado no Facebook dia 16/03/2016 


Era uma vez um garoto chamado Joãozinho, que sempre quisera conhecer o circo do qual tanto ouvira falar.
Um belo dia, seus pais resolveram presenteá-lo com três entradas para o espetáculo do fim de semana seguinte. Tamanha era a ansiedade do menino que os próximos dias rastejaram ociosamente até chegar aquela tarde de domingo, quando Joãozinho sentiu a animação atingir seu pico diante do corredor de entrada da fabulosa tenda circense, onde o rufar dos tambores o saudou em grave estrondo. Seu coraçãozinho acelerou um pouco mais quando o bilhete deslizou da ponta de seus dedos até o interior da urna, desmontando acidentalmente o castelo de certezas que o menino construíra em sua mente. Segurando as mãos de seus pais, Joãozinho avançou corredor adentro e procurou um lugar onde todos eles pudessem se sentar.
Primeiramente, o menino tentou a arquibancada azul que parecia mais próxima a ele. Seu queixo ergueu-se automaticamente diante da escadaria íngreme que o separava dos poucos assentos ainda disponíveis no setor - pelo menos até que a coleção de pertences de uma velha senhora tomasse as mesmas três cadeira que ele pensara em pleitear. Para piorar, observando mais atentamente aquelas pessoas, Joãozinho ficou com a impressão de que aquele era um lugar muito pouco amigável a crianças como ele: o olhar estupefato com que os pequeninos admiravam seus cones de sorvete vazios contrastava com as manchas de chocolate espalhadas sobre as bochechas dos homens rechonchudos e elegantes que as observavam.
Levemente desconcertado, Joãozinho apertou as mãos de seus pais e olhou para o outro lado do corredor, onde um setor maior da arquibancada continha fileiras vermelhas muito mais numerosas que desciam até a posição atual do garoto, bem pertinho do picadeiro. Os rostos ferventes dos espectadores acompanhavam a música ambiente com empolgação, contrariando a apatia demonstrada pelo setor azul disperso do outro lado do picadeiro. Sem pensar duas vezes, Joãozinho deu seu primeiro passo naquela direção, antes que uma enxurrada de olhares duros congelasse seus movimentos.
O que aquele menino tão alienado esperava fazer ali, afinal? Suas roupas gritavam uma classianidade mediana inegavelmente europeica - ou assim ouviram seus ouvidinhos tão delicados. Uma criança assim jamais compreenderia um espetáculo circense ao vivo como aquele, estando tão acostumada à televisão. Houve aqueles que até o acusaram de ser um espectador da arquibancada contrária, apenas disposto a atrapalhar a festa.
Joãozinho acanhou-se diante da avalanche de sabedoria e altruísmo que pareceu desabar sobre ele, completamente alheio ao fato de que a parte inferior da mesma arquibancada vermelha também não entendia muito bem o que os outros diziam. Mas eles acenavam com a cabeça, acenavam. Não havia lugar algum para Joãozinho ali também, afinal.
Acuado, o menino retrocedeu pelo corredor, percebendo que seus pais lutavam para subir a escadaria íngreme do setor azul do outro lado do picadeiro, deixando-o tão sozinho quanto o menino passava as tardes no pátio da escola. Ao respeitável público da arquibancada vermelha, a gerente do espetáculo prometia agora uma rodada de pizzas em troca de uma grande salva de palmas, que irrompeu de boa parte do público na mesma hora. Ao respeitável público da arquibancada azul, a mesma senhora distribuia seus cartões de contato como se fossem bilhetes premiados, disputados a tapa pelos sujeitos engomados.
Joãozinho naturalmente desistiu de procurar pelos pais naquele instante, decidindo assistir ao espetáculo no meio do corredor mesmo. Suas mãozinhas já tremiam em empolgação quando a senhora finalmente anunciou a trupe que entrava no picadeiro.
Dentre todos os palhaços, trapezistas e ilusionistas presentes, Joãozinho indentificou diversos remanescentes das últimas versões do espetáculo - se é que as páginas virtuais que visitara podiam ser confiadas, é claro. A completa falta de equilibristas passou quase despercebida por ele, talvez graças à grande quantidade de contorcionistas já presentes. O que mais espantou o menino, contudo, foram os malabaristas. Esses sim sabiam conduzir o show, brincando com a expectativa do público enquanto os mágicos faziam desaparecer diversos objetos dos dois lados da plateia. Estranhamente, contudo, grande parte de ambos os setores pareceu não entender a brincadeira, acusando o lado oposto de terem furtado seus pertences.
Justamente enquanto entravam os animais, no entanto, é que a errônea sutileza de uma pedalada em falso compremeteu não só o espetáculo, mas o circo inteiro de fato. O globista acertou um dos pirofagistas em cheio, e os bastões flamejantes que saltavam à meia altura fugiram do controle, ateando a cabeleira colorida dos palhaços bem no meio de seu ato. Aturdidos, os pobrezinhos esbarraram em mais alguns dos malabaristas, que por sua vez derrubaram os mágicos e até mesmo os acrobatas que preparavam-se para mais uma série de saltos. Em meio ao caos agora generalizado, somente o leão parecia sob controle, obedecendo à risca as ordens de seu domador - que pelo que Joãozinho notou, parecia mais empenhado em proteger os membros da trupe do que a própria plateia. Bem ao centro do picadeiro, a gerente do circo parecia simplesmente aturdida, e algo estranho em sua nova feição chamou a atenção do menino rapidamente: linhas escuras escorriam das pontas de seus lábios secos até o queixo aveludado mais abaixo, e Joãozinho espantou-se ao identificar as cordas que prendiam seu corpo de fantoche junto ao colo de um homem idoso de olhar aparentemente amistoso.
Mesmo com o recém-chegado ventríloco, a gritaria só se intensificou pelos próximos minutos, martelando na cabeça de Joãozinho como o som das paneladas com as quais sua avó o chamava para almoçar. Apreensivo, Joãozinho ouviu os dois setores polarizarem por completo em questão de segundos: os senhores e senhoras das arquibancadas azuis superiores exigiam aos brados seu dinheiro de volta, mostrando pouca preocupação com quem estava mais próximo do picadeiro. Do outro lado, o público das arquibancadas vermelhas tentava convencer os outros de que já tinham visto incêndios muito piores no passado - isso é, se aquilo realmente fosse um incêndio no fim das contas, e não apenas um golpe ilusionista do circo concorrente. No fogo cruzado, sobrou ainda para filósofos gregos, escoceses e prussos sobre os quais Joãozinho pouco ouvira falar, mas que eram recitados como canções de ninar pelas arquibancadas, agora engajadas em uma batalha de estéreo tipos. Ou seriam tipos estéreos?
Joãozinho tentou gritar, completamente exasperado. De um lado, sua voz era completamente ignorada; de outro, algumas pessoas cogitavam culpá-lo pelo que havia acontecido. E foi justamente assim, espremido entre o anonimato e o ódio, que Joãozinho assistiu ao circo inteiro pegar fogo - e nem mesmo toda a água do lava jato vizinho ao circo foi capaz de abatê-lo. Na verdade, ela parecia mais querosene.
Incerto sobre o que seria dele e de todas aquelas pessoas, o menino perguntou-se por que os adultos demoravam tanto para tomar uma decisão sensata em uma hora tão crítica quanto aquela. Por que é que os devoradores de sorvete, sentados tão ao alto nas arquibancadas azuis, não desciam até o picadeiro e usavam o conhecimento técnico do qual se gabavam para salvar toda aquela gente? Por que é que a plateia oposta, tão resoluta em ressaltar seu compromisso com o bem estar de todos, gastava tanto tempo assoprando o fantoche, o ventrículo e seus palhaços ao invés de tentar socorrer os mais próximos?
Tais respostas Joãozinho jamais saberia, pois o circo veio abaixo mais rápido do que todos haviam previsto. Ironicamente, contudo, foram muito mais membros da trupe do que espectadores que sobreviveram ao terrível acidente.
Passada uma semana da tragédia, o mundo virtual viu duas figuras emergirem ferozmente das cinzas do acontecimento: a do velho ventríloco, que se desfizera de seu fantoche e bradava ser capaz de conduzir o circo tão bem quanto antes, e aquela de um homem serpentiloso que estivera o tempo inteiro observando o desastre lá de dentro, apenas esperando uma oportunidade para erguer um circo mais firme, onde suas aberrações seriam tratadas no chicote.
E quanto ao Joãozinho?


Não é como se qualquer um de nós realmente se importasse com ele.

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