segunda-feira, 18 de abril de 2016

Sessão da Tarde, por PipocaComVinagre

CRÍTICA: Um Congresso da Pesada

Direção: Eduardo Cunha
Roteiro: Jovair Arantes
Estrelando: Jean Wyllys, Jair Bolsonaro e vasto elenco
Duração: 6h02min

A expectativa era grande para a estreia do longa tupiniquim mais aguardado do ano, exibido simultaneamente em diversos canais de televisão aberta e via streaming por muitos veículos de comunicação internet adentro. A equipe do site PipocaComVinagre já assistiu ao filme e registra aqui suas primeiras impressões sobre um dos projetos brasileiros mais controversos dos últimos 22 anos. 

Iniciando a sessão de modo protocolar e fingidamente desinteressado, o cineasta Eduardo Cunha (O Navio-Sonda e Suíça: A Conta que não Fecha) age como narrador para um primeiro ato que, além de demasiado extenso, conta com deficiências claras de estruturação e atuação por todo o elenco escalado para a película. Para os mais informados, o resultado já era de certo modo esperado, uma vez que o racha entre Cunha e o Estúdio Petê, ex-parceiro e amante da Agência Peêmedebê de Cunha, já havia se tornado público há alguns meses, resultando em divergências criativas que naturalmente afetariam a produção da obra.

Diante de uma liderança tão questionada assim, cabia ao roteiro de Jovair Arantes (O Agente da Conab) suprir as necessidades artísticas e morais apresentadas pela direção do longa-metragem - incumbência que logo demonstra estar muito além da capacidade do relator em seu texto padrão de ensaio, que apresenta motivações tão pífias a seus personagens quanto aquelas de grandes blockbusters hollywoodianos dos últimos tempos. Se a divisão do público parecia extrema em Batman V Superman e Capitão América 3: Guerra Civil, o longa brasileiro usa recursos narrativos questionáveis para elevar ainda mais o tom de polarização da plateia, que ao invés de escolher entre seu herói predileto, agora tem de se contentar em decidir o vilão que merece seu carinho. Decorada com frases de efeito e diálogos repetitivos que soam como dedicatórias, a trama se torna enfadonha logo em sua primeira hora de projeção, reservando pouquíssimas surpresas a um público que luta para manter a sanidade e o respeito durante as seis horas de duração do filme.

A segunda metade da produção também se arrasta com pouquíssima inspiração em seu segundo ato, quando uma de suas sequências mais promissoras tenta entreter o espectador a todo custo, sendo protagonizada por atuações improvisadas muito polêmicas de dois dos atores mais aclamados pelo grande público. A cena entre Jean Wyllys (Big Brother Brasil: Vende-se Intelecto por Sucesso) e Jair Bolsonaro (O Ditador e o Homofóbico) deve arrancar suspiros por boa parte dos espectadores, mas não funciona como nada mais do que um mero artifício para camuflar a total falta de capacidade do restante do elenco, limitado a ecoar falas emotivamente artificiais a parentes, divindades, escravos e vítimas do holocausto.

Seguindo o tom lamentável dos dois primeiros atos, o clímax do longa não surpreende, mas acidentalmente deixa muito material no qual se pensar, o que talvez seja o ponto de maior destaque do longa-metragem inteiro. Mesmo com tantas horas de duração, é possível que o grande público saia da sessão satisfeito com o final idílico apresentado, mas todos nós temos a obrigação de nos perguntarmos qual será o futuro do cinema brasileiro depois de um projeto tão controverso como esse. Com tanto investimento público assim, é frustante constatar que estúdios, cineastas e artistas pareçam cada vez menos interessados nas necessidades reais do público, mas sim em suas próprias carreiras.

O que será da arte após esse choque anafilático? Renascerá de um longo estado moribundo ou será silenciada de vez, como já foi anteriormente?

A única certeza é a de que jamais colocarei minhas mãos no fogo.    

sexta-feira, 1 de abril de 2016

O Dia da Mentira, pelo Tolo de Abril

Não acredite em absolutamente nada do que ler na Internet hoje. É sério.

Através de todo o alcance proporcionado pelas mídias sociais, haverá aqueles que exaltarão estupidamente a ditadura militar. Outros mitificarão fascistas, cuspirão sobre a desigualdade social, espalharão a ilusão da meritocracia e fingirão acreditar no impeachment como uma solução derradeira para todos os problemas que os cercam. Tenha paciência com esses seres tão ariscos e irritadiços, que aproveitarão o dia de hoje para tumultuarem a casa um pouco mais.

Da mesma forma, não ouse baixar a guarda para o outro lado, onde a criatividade correrá solta e fertilmente. Artistas de renome insistirão em uma esquerda há muito endireitada, enquanto outros recorrerão a fantasmas golpistas em nome de uma democracia partidária. Haverá ainda aqueles a defenderem o direito entortado das urnas de 2014, ignorando a grossa camada de maquilagem usada para que o defunto das contas públicas parecesse saudável e digno de confiança.
       
Vale tudo para pregar uma peça inesquecível nos mais inocentes durante o dia de hoje - e qualquer que seja o resultado, tenha certeza de que essa será uma daquelas pegadinhas que o país inteiro lembrará dia a dia, pelos próximos muitos anos. Só resta saber quem de fato achará tudo isso engraçado.